A biografia O Mago revela detalhes escabrosos do passado de Paulo Coelho

Alessandra Quedi 6 de junho de 2008 0

Antonio Ribeiro
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Paulo Coelho: “Minha vida privada não mais me pertence”

Livros
Perdoado pelo sucesso

A biografia O Mago revela detalhes escabrosos do passado de Paulo Coelho– mas, para quem já vendeu 100 milhões de livros, isso conta como promoção.
Jerônimo Teixeira

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Trecho do livro

“A minha vida privada não mais me pertence”, afirmou Paulo Coelho, no ano passado, em um artigo no qual criticava o acordo judicial que censurou a biografia Roberto Carlos em Detalhes, do historiador Paulo Cesar de Araújo. A prova de que a afirmação é verdadeira acaba de chegar às livrarias: O Mago (Planeta; 632 páginas; 39,90 reais), biografia escrita pelo jornalista Fernando Morais. Consta que Coelho não interferiu no trabalho de seu biógrafo. Ao contrário, facilitou-lhe o acesso a diários que cobrem quarenta dos seus 60 anos de vida. Longe de ser temerária, tamanha exposição íntima atesta a inteligência publicitária do escritor. Paulo Coelho atropelou um menino e fugiu sem prestar socorro? Consumiu drogas? Firmou pacto com o demônio? Sim, a biografia confirma tudo isso. Mas foram meros tropeços no caminho de um homem obstinado na realização de seu sonho: tornar-se famoso como escritor. No fim, o herói converte-se no Guerreiro da Luz, o sábio autor de O Alquimista. Os 100 milhões de livros que o mago vendeu em 160 países redimem (em tese) o passado vil.

Filho desgarrado de uma família de classe média conservadora do Rio de Janeiro, Coelho foi o típico doidão que a cultura hippie glamourizou na virada dos anos 60 para os 70. A biografia revela suas experiências alucinógenas e sexuais. Ele teve, por exemplo, relações com homens – fato que já admitira em entrevista a VEJA em 2003 – só para concluir que, no fim das contas, não era homossexual. Mas nem tudo foi colorido nos anos de desbunde. Coelho passou por duas internações psiquiátricas e teve relacionamentos difíceis, beirando o patológico. O mais tumultuado deles foi o romance com a arquiteta Adalgisa Magalhães, a Gisa. Depois de se submeter a um aborto, ela teve uma depressão pesada. Coelho incentivou-a a tentar suicídio – por motivos meio místicos, meio psicanalíticos, achava que essa terapia de choque poderia ajudá-la.

Paulo Coelho fez muito dinheiro, nos anos 70, como parceiro do roqueiro Raul Seixas. Mas o que ele queria mesmo era fazer fama como escritor. Sua determinação começou a dar frutos com O Diário de um Mago, de 1987, e O Alquimista (até hoje seu maior sucesso, com 40 milhões de exemplares vendidos), do ano seguinte. O estilo pedestre e o misticismo de supermercado desses livros encontraram ressonância no grande público, mas desagradaram aos críticos. O Mago retrata Coelho como uma vítima da mídia, perseguido pela intelectualidade elitista e preconceituosa. Não é surpresa. Morais é um ardente apologista da ditadura de Fidel Castro e acredita na inocência de José Dirceu, acusado de ser o chefe do mensalão. Com essa larga experiência na defesa do indefensável, não admira que ele busque afirmar o mérito literário de Paulo Coelho.

Divulgação
Raul Seixas e Paulo Coelho: a parceria fez sucesso, mas Coelho queria a fama literária

Morais nem sempre compra barato as lorotas de seu personagem. Em uma entrevista à Playboy, em 1992, Coelho gabou-se do tempo em que viveu com duas mulheres em Londres. O biógrafo corrigiu-o: Coelho não dava conta das duas sozinho – havia um segundo homem na animada cama inglesa –, e uma delas mais tarde reclamaria da performance sexual do escritor. Morais só não desacredita Coelho no seu terreno de eleição, o misticismo. Epifanias, assombrações, visões angelicais – a biografia dá crédito a tudo o que é bobagem sobrenatural. Nas páginas que precedem essas aventuras mágicas, porém, Paulo Coelho aparece falsificando a assinatura do próprio pai, plagiando um texto de Carlos Heitor Cony e dando entrevistas sobre um encontro com John Lennon que nunca aconteceu. O leitor que conhece aritmética básica pode levantar a dúvida legítima: as aventuras sobrenaturais do tal “mago” não serão invenções da mesma ordem? Paulo Coelho é um péssimo escritor, mas talvez seja um gênio da ficção.

Divulgação
Com Gisa: depois do aborto, Coelho recomendou o suicídio

Haxixe, demônio e salgadinhos

Trechos de diários e notas pessoais de Paulo Coelho revelados na biografia O Mago

“Este é o mais longo dos meus
dias. São momentos de angústia
que passo esta noite, sem saber
o estado da criança. (…)
Vou receber intimação por dirigir
carro sem habilitação. E, caso a
criança piore, responderei a processo,
arriscando-me a ir para a
colônia correcional.”
Depois de atropelar um menino de 7 anos
e fugir do local do acidente, em 1965

A sensação de relatividade do
tempo é algo impressionante.
Deve ter sido assim que Einstein
descobriu aquilo.”
Relato de uma experiência com haxixe, no início dos anos 70

“Senti que Você vinha fechando
o círculo à minha volta, e sei que Você
é mais forte que eu. Você tem mais
interesse em comprar minha alma
do que eu em vendê-la.
Negociações para um pacto com o demônio, em 1971

“Fomos recebidos pela mulher
dele, Edith, com uma filha
pequenininha. É tudo caretinha, tudo
bem-comportado. Serviram umas
cumbuquinhas com salgadinhos…
Salgadinhos, que coisa ridícula!
Sobre sua primeira visita à casa do futuro
parceiro musical Raul Seixas, em 1972

Fonte: Revista Veja

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