Mulheres experimentam sexualidade sem rótulo

Alessandra Quedi 6 de julho de 2008 0

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Para psiquiatra, elas não limitam seus desejos necessariamente ao sexo do parceiro. Decepção com ideal de romantismo pode explicar tendência comportamental.

A sexualidade da mulher, desde a simbólica queima de sutiãs pelas feministas em maio de 1968, sempre foi um assunto polêmico. O inegável, no entanto, é que, com o passar dos anos, a mulher tem se permitido experimentar. Por conta disso, segundo o psiquiatra Jairo Bouer, é difícil identificar padrões ou tendências comportamentais do sexo feminino. Bouer é formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da USP.

Ao longo de sua carreira, Bouer se especializou em comportamento e sexualidade. Segundo ele, não é possível definir com exatidão se a mulher está mais aberta a novas experiências ou se sua “liberação” está apenas mais aparente. “Uma pesquisa realizada recentemente nos Estados Unidos, pelo Centro Nacional de Estatísticas em Saúde (NCHS, na sigla em inglês), mostra que 15% das universitárias, entre 19 e 24 anos, já tiveram relação homossexual. O interessante, porém, é que a maioria delas não se declara homossexual ou bissexual”, afirma.

De acordo com a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, além de homossexuais e heterossexuais podem existir diversas opções sexuais intermediárias. “Essa situação de experimento é muito mais antiga do que se pensa. O que mudou foi a forma de a sociedade enxergar essa diversidade, com menos preconceito”, diz. Ainda segundo Carmita, a orientação sexual não é uma escolha, mas um fator biopsicossocial, influenciado pela hereditariedade e pelas experiências de vida de cada um.

Foto: Anderson Borde/Ag News

Anderson Borde/Ag News
Em show, cantora Preta Gil troca selinho com a amiga Ana Carolina (Foto: Anderson Borde/Ag News)

Sociedade moldada

Para Bouer, a flexibilidade de escolhas propiciada pelos novos moldes da sociedade tem feito com que a mulher não limite seus desejos necessariamente ao sexo do parceiro. “Conheço casos de mulheres que foram casadas por anos com homens e depois de uma decepção, por exemplo, se apaixonaram por uma mulher. Depois do relacionamento homossexual pode acontecer de ela voltar a se relacionar com um homem”, diz Bouer.

Um dos motivos que pode levar mulheres a ingressarem em uma relação afetiva e de prazer com outras mulheres, sem considerar-se predominantemente homossexual, pode ser o romantismo característico do sexo feminino. “Muitas vezes a mulher se cansa do espírito masculino e consegue lidar melhor com suas inibições sexuais se estiver se relacionando com outra mulher”, afirma Bouer.

A cantora Preta Gil concorda. “Eu acho que a mulher está se permitindo experimentar e isso talvez aconteça por causa da decepção com o ideal de homem e de romantismo”, diz. Preta afirma, porém, que essas mudanças de comportamento podem ter aspectos negativos e positivos. “É bom porque a mulher passa a se conhecer melhor e pode ser ruim se for encarado apenas como um modismo”, diz ao G1.

Sexualidade contínua

Para Bouer, a tendência ao experimento não tem idade. “Tenho visto casos com mulheres de 14 a 50 anos. Entre as adolescentes é um pouco mais comum do que era há alguns anos, mas pode ser por conta de um menor preconceito, ou até por um certo modismo”, diz.

“Isso reforça aquela história de que a sexualidade é contínua. Não existe apenas o ser heterossexual, homossexual ou bissexual. É possível não gostar igualmente da mesma coisa em todas as fases da vida. E vale lembrar que nem toda mulher está aberta a experimentar, e é exatamente essa liberdade de poder ou não querer algo que faz a diferença”, diz.

Fonte: G1.globo.com

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